Definitivamente hoje o movimento ambientalista ganhou força e deixou de ser de interesse apenas de poucas pessoas preocupadas com o futuro do planeta. O que era moda virou tendência e hoje mesmo aqueles que não têm maiores pretensões em virar ecologistas já se conscientizaram da importância de se preservar o planeta.
Uma boa forma de medir isso é o número de pessoas que reciclam seus lixos. Seja por vontade própria ou por imposição de condomínios a questão é que esse número mais do que dobrou nos últimos anos. A questão ambiental virou pauta diária de todos os veículos de comunicação. Não se passa um dia sem ter ao menos uma nota sobre o assunto.
Para os mais avançados no assunto a novidade é se tornar neutro na emissão de carbono. Sites de empresas que oferecem ajuda para isso multiplicam-se pela rede.
Mas afinal, o que é isso?
Cada pessoa diariamente é responsável direta ou indiretamente pela emissão de carbono na atmosfera. Diretamente quando respiramos, fumamos um cigarro, dirigimos nossos automóveis, cozinhamos, enfim, fazemos nossas atividades diárias. Mas também somos responsáveis pela emissão indireta que vem da energia elétrica que consumimos, da carne bovina que comemos, do lixo que produzimos.
Para ficar em paz com a natureza seria necessário que tomássemos medidas para eliminar todo esse carbono, já que não podemos simplesmente deixar de produzi-lo em sua totalidade. Mas como fazer isso? Plantar árvores é uma solução. Pensando nisso e na falta de tempo gerada pela vida moderna empresas começaram a oferecer este serviço. Paga-se para que elas fiquem responsáveis por plantar árvores e nos tornar “carbonos neutros”.
Mas não é apenas no plantio das árvores que se pode neutralizar a quantidade enorme de dióxido de carbono que é jogado diariamente no ar. Empresas que conseguem produzir gerando menos poluição vendem o que “sobra” de sua quota para empresas que não conseguem reduzir sua poluição. O mesmo ocorre entre países. Os mais industrializados compram cotas dos menos industrializados e também, em tese, menos poluidores.
A procura por esse tipo de serviço cresce a cada dia e não apenas por pessoas preocupadas com a natureza, mas também por indústrias internacionais que precisam prestar conta do volume de carbono emitido.
O Protocolo de Kyoto,
Esse acordo prevê que cada país tem uma cota máxima de emissão, instituiu as taxas e é o instrumento de regulação desse processo. Quem enfrenta maiores problemas com as cotas são os países mais desenvolvidos, que também foram os que mais se opuseram aos termos do Protocolo.
Mas diante dos números e panoramas catastrófico apresentados pelos cientistas o mundo se rendeu à causa ecológica. Tornar-se “carbono neutro” já não é mais algo que poucos se orgulham de ser, mas tornou-se uma necessidade vital.
Tudo o que vem fácil...
Mas tão rápido quanto surgiram as empresas especializadas no assunto, surgiram também denúncias de fraudes. O Financial Times fez um levantamento e constatou que existem “deficiências generalizadas nos novos mercados de gases causadores do efeito estufa, indicando que algumas organizações estão pagando por reduções de emissão que ocorrem”. A matéria que foi publicada no jornal Valor Econômico do dia 26 de abril aponta uma série de outras irregularidades.
Dicas do especialista
Para quem quer fazer parte desse processo de diminuição da poluição individual, mas não quer correr o risco de ser enganado vale conferir os conselhos de Flávio Brando da Max Ambiental, uma das empresas especializadas nesse assunto:
Como funciona o mercado de compra de carbono?
Com a chegada do Protocolo de Kyoto, os países desenvolvidos signatários (e suas empresas, por tabela) têm que reduzir gradativamente suas emissões de gases do efeito estufa. Existem metas de redução ano a ano. As empresas industriais, p. exemplo, podem modificar seu processo industrial (utilizar energia renovável, biomassa, p. ex., que emite menos, ao invés de óleo diesel), investir em eficiência energética, ou, se isto for impossível ou economicamente inviável, comprar de países emergentes como o Brasil, certificados de redução de emissões (CERs). Os projetos nos quais os certificados são emitidos serão examinados e auditados anualmente por órgãos regulatórios e auditores nacionais e internacionais. É um mercado estimado em US$ 30 bilhões anuais e já existe estimativa de US$ 100 bilhões para 2.010.
Quais são os principais compradores?
Empresas, países e fundos de investimento compram, portanto, certificados de redução de emissão (CERs), desenvolvidos por países emergentes, como o Brasil, para acertar a sua "contabilidade" ambiental (cumprimento de metas de redução) ou como investimento financeiro. Este é o chamado Mercado Kyoto, financeiro, de Bolsa. O valor de mercado dos CERs obedece às leis de oferta e procura. Existe, por outro lado, o chamado mercado voluntário, onde pessoas físicas e jurídicas "compram" voluntariamente CERs ou investem em projetos de redução de emissão de gases do efeito estufa (plantação de árvores, urbanização de aterros sanitários, p.ex.) por uma atitude ética e de cidadania responsável, por uma questão de imagem e comunicação, marketing (meus consumidores darão preferência a meu produto ao invés do concorrente que não neutraliza suas emissões), obtenção de crédito (os Bancos começam a boicotar empresas que não têm uma postura ambiental saudável), seguro (mesma razão). Qualquer atividade humana pode ser neutralizada, desde uma simples reunião, a um evento (casamento, batizado, show de rock, congresso, convenção) e existem ferramentas científicas para calcular a emissão prevista de gases, e recomendar as alternativas possíveis para sua neutralização.
Quais medidas as pessoas interessadas em ser “neutras” na emissão de carbono podem adotar?
Existem muitas empresas, sites (Carbono Neutro, por exemplo) e ONGs que fazem o cálculo das emissões e recomendam projetos e alternativas para neutralização. Na vida de cada um, governo, pessoa física ou jurídica, devemos usar quanto menos energia possível, papel reciclado, dar preferência a compra de produtos ou serviços carbono neutro ou de fornecedores locais que usem pouco transporte, utilizar transporte público ou automóveis a álcool ou flex, viajar de avião com moderação, reciclar lixo, enviar presentes sem plásticos de cobertura, e por aí vai.
Como saber se a empresa que vende créditos de carbono está realmente reduzindo a emissão?
Essas empresas, sites e ONGs podem receber dinheiro para investimento direto nos projetos (como, p. ex., faz o SOS Mata Atlântica, com o Florestas do Futuro) ou vender certificados. Normalmente uma pessoa física irá investir em projetos, pois o mercado de certificados está basicamente localizado no exterior, Londres, e os volumes são pequenos para este movimento. Seja como for, se alguém se decidir por comprar certificados, vale a regra de que anualmente os certificados (estágio final do ritual de acreditação) são auditados anualmente por empresas independentes e de reputação, como Price Waterhouse, SGS e outras.
Como fugir das fraudes?
É o mesmo problema de doar dinheiro para entidades de caridade. Informe-se, visite o site e a própria entidade, peça referencias da entidade ou empresa e seus gestores. É muito importante entender que neutralização, p. ex., com o plantio de árvores, é uma proposta de anos e não simplesmente jogar uma semente na terra e esquecer do assunto. Daí a seriedade da escolha do veículo de neutralização.
O jornal Financial Times publicou recentemente um artigo sobre fraudes neste mercado voluntário. Como responder a suas objeções? Como tudo que é novo, sim, existem aventureiros e muita gente vira "expert" no assunto do dia para a noite, como aconteceu na onda da Internet. Existe um debate mundial em andamento sobre a necessidade de padronização e metodologias de compensação (offset), o que deverá acontecer em um futuro não distante, possibilitando a existência de padrões de cálculos, auditorias, transparência e comunicação. É um mercado explosivo, mas com um valor inestimável, pois é muito a partir dele que as pessoas físicas e jurídicas tomam conhecimento mais íntimo do problema talvez mais explosivo da humanidade no momento (a par do crescimento populacional).